sábado, 15 de agosto de 2009

algumas considerações sobre a Dinamarca (ou: dos problemas de viver no país perfeito)

Este é definitivamente um país onde tudo funciona. De forma irritantemente eficiente. Tive uma prova disso na semana passada. Chego à Rundetårn, torre de onde é possível ver boa parte de Copenhague. Segue o diálogo com o funcionário da bilheteria.
– Hi – digo, estendendo 25 coroas.
– Hi – ele pega as moedas – Where are you from?
– Brazil – respondo, achando que ele está só sendo simpático. Ele procura um folheto.
– It can be in English – digo, tentando poupar-lhe trabalho em vão.
– We have it in Portuguese – responde ele, me entregando o papel.
Ou os portugueses e brasileiros são uma parcela significativa dos turistas – o que não parece ser o caso, já que não se escuta muito a língua pelas ruas – ou a eficiência dinamarquesa simplesmente passou dos limites.
Sim. Aqui, tudo funciona. A burocracia inexiste, é fácil tirar documentos, a saúde é pública para todos, inclusive estrangeiros, e os melhores museus são gratuitos. Os carros param quando alguém pisa na faixa; ninguém atravessa se o sinal estiver fechado (mesmo que a rua esteja deserta); há ciclovias por todos os lados, uma de cada lado da rua, cada uma em um sentido; os ciclistas fazem sinal antes das conversões e as bicicletas ficam estacionadas sem necessidade de cadeados. Os trens são muitos, em todas as direções, e absolutamente pontuais.
O transporte público é um capítulo à parte e faria corar Marta Suplicy com a grande piada que é o nosso bilhete único comparado ao sistema dinamarquês. Tudo funciona com base em zonas e o preço da passagem varia de acordo com elas. Para viajar entre duas zonas, são 21 coroas; entre três, 31,50, e assim por diante. Na Grande Copenhague, são 95 zonas, embora eu só tenha conseguido identificar oito (a oitava é onde fica a cidade onde moro, Roskilde – ou rroskill, como me corrigiu o fiscal do trem após várias tentativas de explicar para onde eu ia). A mesma passagem vale para os trens (urbanos e regionais), ônibus, metrô e até para os barquinhos que cruzam o canal do porto e é possível escolher entre bilhetes que valem de uma hora a 30 dias. É como se, com a mesma passagem, pudéssemos viajar em uma área que inclui a Grande São Paulo, Santos e até Jundiaí. E tudo é limpo e eficiente, nunca lotado. Bom, pelo menos os trens, que são o meio que tenho utilizado, já que não consigo nem pronunciar o nome dos lugares para pedir informações sobre os itinerários dos ônibus.
É, a língua é realmente um problema. É muito frustrante olhar as placas nas ruas, as embalagens nos supermercados, as manchetes dos jornais e tudo o mais e não conseguir identificar sequer uma palavra. E, se ler é impraticável, compreender é impossível. As pessoas podem estar falando dinamarquês, norueguês, sueco ou alemão. Tanto faz, não consigo fazer nenhuma distinção. Tudo bem, todos falam inglês e são muito, muito solícitos, mas, mais uma vez, como podem ajudar quando você não consegue nem pronunciar os nomes das ruas, cidades, lugares, lojas?
As lojas, aliás, são outro capítulo da irritante eficiência. Pois, se ela funciona em benefício dos turistas e usuários de transporte público, também funciona para a “classe trabalhadora”, que é brindada como uma jornada de trabalho bastante reduzida. Isso significa que tudo fecha muito cedo. Do comércio de rua – mesmo o turístico – às farmácias, tudo fecha entre 17h e 18h. Os shoppings, lojas de departamento e uns poucos supermercados têm o horário estendido até – pasmem – às 20h. Durante a semana, porque tudo fecha mais cedo no sábado. E nem tente encontrar algo aberto no domingo. Isso é especialmente irritante quando a luz do dia sempre passa das 21h. Mas tudo bem, a Dinamarca é um país onde tudo funciona.

6 comentários:

guilherme disse...

E o medo que dá de ficar sem comida na geladeira no sábado à tarde? Ou vc tem dinheiro para ir a restaurantes ou esquece comer em casa no sábado e no domingo... Mas sabe que a gente acostuma??? Beijo!

Paula disse...

Imagine tudo isso mas sem vc conseguir ler o alfabeto...

Natalia disse...

nossa, paula, realmente eu não tinha pensado nisso. sempre pode ser pior.
gui, eu tive que economizar as fatias de pão esse fim de semana... mas tudo bem, logo eu incorporo o hábito.

Unknown disse...

transforma em dieta!
beijos

Sil disse...

Nat, na Austria é a mesma coisa..é uma questão de se organizar e habituar aos novos costumes...Fazer uma listinha cada dia e fazer as comprinhas no sabado antes das 2pm... vc vai tirar de letra...bju Tia Sil

Vanessa Moiseieff disse...

Dorei, acho que as pessoas estão viajando com vc!