sábado, 13 de fevereiro de 2010

um breve post sobre uma breve despedida

dessa vez, as despedidas foram muito mais difíceis. um nó na garganta a cada abraço, uma lágrima voluntriosa que me venceu quando entrei no táxi. mesmo sabendo que vai ser tudo mais fácil, que já tenho um lar, uma mãe para cuidar de mim e uma cidade que adoro à minha disposição. talvez porque eu também já saiba do que vou sentir falta - ou de quem - e quanto isso vai me doer.
não fico triste porque acho que a experiência não vai ser boa. ao contrário. tenho certeza que será incrível. fico triste apenas porque as pessoas com quem desejo dividir esses momentos estarão longe.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

o azul do fim do dia

Eu adoro aquela hora do dia em que ainda não está totalmente escuro, mas também não está claro mais. O céu se colore de um azul inimitável e todas as coisas ganham um brilho diferente.
Hoje, vi o céu ganhar essa cor através das pequenas janelas no alto da nave da catedral de Roskilde, enquanto o espaço era tomado pelas notas que fluíam de um esplêndido órgão do século 19, como se toda uma orquestra houvesse se instalado ali.
Enquanto o organista soava Bach e Haydn, o céu passava do azul insípido diurno para esse azul paradoxal, intenso e suave. Caminhar sozinha pelas ruas iluminadas, sob essa cúpula luminosa, foi o toque final.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sobre a insignificância

Em meio a estudantes de todas as nacionalidades, ser o único representante do Brasil significa ser chamado a dar alguns esclarecimentos. Surpreendentemente, eles nada têm a ver com samba ou futebol, mas o primeiro é bastante banal: não, nós não falamos espanhol. Na verdade, o que chamou minha atenção foi o que veio em seguida: nossa moeda é forte? Quanto vale em relação ao euro e ao dólar? Bem, parece que, em comparação a muitos outros países (Rússia, Ucrânia e Israel, por exemplo), nossa moeda é bem forte. Sei que seria incompleto dizer só isso e esquecer que pagamos impostos absurdos e que a renda de grande parte da população não alcança os cem dólares.
E como o Brasil está se saindo diante da crise econômica? O que devo responder? Que, entre mortos e feridos, salvaram-se todos (ou quase)? Que os mais afetados foram as classes mais pobres e as exageradamente ricas? Que a economia já começa a se recuperar? É óbvio que falta aí um dado essencial: nossa taxa de crescimento já era ridícula antes da crise e o tombo não poderia ser tão grande.
Mas o verdadeiramente curioso nesses questionamentos não é o interesse na economia brasileira. É outra coisa. Por mais que se alardeio no Brasil nossa crescente importância na geopolítica mundial, nossa posição de potência regional e emergente, por mais que Obama diga a Lula que ele “é o cara”, o resto do mundo está cagando para nós. Ignoram nosso papel na geopolítica, não sabem que Lula se considera um grande líder mundial e nem fazem idéia de quem ele seja, desconhecem que estamos entre as dez maiores economias do mundo e que São Paulo é uma megalópole com quase 20 milhões de habitantes na área metropolitana (a maior cidade das Américas e maior do que qualquer capital européia).
No “velho mundo”, continuamos insignificantes.

sábado, 15 de agosto de 2009

algumas considerações sobre a Dinamarca (ou: dos problemas de viver no país perfeito)

Este é definitivamente um país onde tudo funciona. De forma irritantemente eficiente. Tive uma prova disso na semana passada. Chego à Rundetårn, torre de onde é possível ver boa parte de Copenhague. Segue o diálogo com o funcionário da bilheteria.
– Hi – digo, estendendo 25 coroas.
– Hi – ele pega as moedas – Where are you from?
– Brazil – respondo, achando que ele está só sendo simpático. Ele procura um folheto.
– It can be in English – digo, tentando poupar-lhe trabalho em vão.
– We have it in Portuguese – responde ele, me entregando o papel.
Ou os portugueses e brasileiros são uma parcela significativa dos turistas – o que não parece ser o caso, já que não se escuta muito a língua pelas ruas – ou a eficiência dinamarquesa simplesmente passou dos limites.
Sim. Aqui, tudo funciona. A burocracia inexiste, é fácil tirar documentos, a saúde é pública para todos, inclusive estrangeiros, e os melhores museus são gratuitos. Os carros param quando alguém pisa na faixa; ninguém atravessa se o sinal estiver fechado (mesmo que a rua esteja deserta); há ciclovias por todos os lados, uma de cada lado da rua, cada uma em um sentido; os ciclistas fazem sinal antes das conversões e as bicicletas ficam estacionadas sem necessidade de cadeados. Os trens são muitos, em todas as direções, e absolutamente pontuais.
O transporte público é um capítulo à parte e faria corar Marta Suplicy com a grande piada que é o nosso bilhete único comparado ao sistema dinamarquês. Tudo funciona com base em zonas e o preço da passagem varia de acordo com elas. Para viajar entre duas zonas, são 21 coroas; entre três, 31,50, e assim por diante. Na Grande Copenhague, são 95 zonas, embora eu só tenha conseguido identificar oito (a oitava é onde fica a cidade onde moro, Roskilde – ou rroskill, como me corrigiu o fiscal do trem após várias tentativas de explicar para onde eu ia). A mesma passagem vale para os trens (urbanos e regionais), ônibus, metrô e até para os barquinhos que cruzam o canal do porto e é possível escolher entre bilhetes que valem de uma hora a 30 dias. É como se, com a mesma passagem, pudéssemos viajar em uma área que inclui a Grande São Paulo, Santos e até Jundiaí. E tudo é limpo e eficiente, nunca lotado. Bom, pelo menos os trens, que são o meio que tenho utilizado, já que não consigo nem pronunciar o nome dos lugares para pedir informações sobre os itinerários dos ônibus.
É, a língua é realmente um problema. É muito frustrante olhar as placas nas ruas, as embalagens nos supermercados, as manchetes dos jornais e tudo o mais e não conseguir identificar sequer uma palavra. E, se ler é impraticável, compreender é impossível. As pessoas podem estar falando dinamarquês, norueguês, sueco ou alemão. Tanto faz, não consigo fazer nenhuma distinção. Tudo bem, todos falam inglês e são muito, muito solícitos, mas, mais uma vez, como podem ajudar quando você não consegue nem pronunciar os nomes das ruas, cidades, lugares, lojas?
As lojas, aliás, são outro capítulo da irritante eficiência. Pois, se ela funciona em benefício dos turistas e usuários de transporte público, também funciona para a “classe trabalhadora”, que é brindada como uma jornada de trabalho bastante reduzida. Isso significa que tudo fecha muito cedo. Do comércio de rua – mesmo o turístico – às farmácias, tudo fecha entre 17h e 18h. Os shoppings, lojas de departamento e uns poucos supermercados têm o horário estendido até – pasmem – às 20h. Durante a semana, porque tudo fecha mais cedo no sábado. E nem tente encontrar algo aberto no domingo. Isso é especialmente irritante quando a luz do dia sempre passa das 21h. Mas tudo bem, a Dinamarca é um país onde tudo funciona.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

sobre desejos e pânico

Era feriado, sexta-feira santa, e eu estava de plantão. Meio mau-humorada, cheguei à redação vazia, a não ser pela menina nova, que cobria férias. Liguei meu computador, abri o e-mail do trabalho e procurei por uma mensagem da minha editora. No dia anterior, acontecera um problema com as minhas páginas e eu escrevera a ela, que estava de folga, perguntando como podia resolver. Li a resposta e telefonei ao diagramador para saber quando ele chegaria para fazer as mudanças necessárias.
Só então fui ver os outros e-mails. E estava lá. Em letras maiúsculas, o assunto da mensagem dizia: OFFICIAL ADMISSION TO COMUNDUS PROGRAMME 2009-2010 AND EM SCHOLARSHIP. Vai parecer clichê, mas não posso omitir que senti meus batimentos virem parar na garganta, acelerados. Abri o e-mail. Dear Natalia, as Coordinator of the CoMundus Master Course, I'm glad to communicate you that you have been selected for the year 2009/2010 and you have been awarded the Erasmus Mundus Scholarship to attend the CoMundus Master Course. Li mais uma vez.
- Caralho, caralho! - sem poder evitar, meus gritos ecoaram pela redação vazia, assustando minha colega.
***
Três meses antes eu correra para cima e para baixo nas minhas poucas horas de folga, reunindo documentos, para não perder o prazo da inscrição para um mestrado oferecido pela União Europeia. Postei os envelopes no último dia. Coincidentemente, era meu aniversário.
Ao chegar à redação mais tarde do que de costume (sim, eu sou caxias), uma colega comentou, em tom de brincadeira:
- Olha a hora! - e rindo, completou - Nem a Natalia chega cedo mais!
Ensaiei um sorriso que deveria parecer misterioso e respondi:
- Eu estava cuidando do meu futuro.
É claro que, depois dessa frase, ela me obrigou a contar o que eu estivera fazendo.
***
Quatro anos antes, um professor da faculdade fora convidado a dar aulas nesse mestrado, em Florença e Londres, e abandonara minha classe no meio do semestre, comprimindo as aulas em apenas dois meses. Em troca, ele falaria à classe sobre o programa quando voltasse. Ele voltou em agosto. No ano seguinte, abandonei as aulas de francês e comecei a estudar italiano.
***
Alcançar um objetivo ou algo desejado há muito tempo é uma coisa bem estranha. Principalmente quando é algo que parecia muito distante e que envolve alguns sacrifícios. No início, é até difícil acreditar. Em seguida, já convencido, você dificilmente se dá conta da real dimensão da coisa. Só mais tarde, às vespéras da concretização, a realidade cai sobre a sua cabeça. E ela pesa um pouco, viu?
Como sempre, tento parecer forte e não pensar nas coisas que me oprimem e me pesam no estômago. Rindo nervosa, admito a pessoas com quem nem me importo que sim, estou com medo. Com palavras diferentes, duas migas me disseram para transformar o pânico em sensação de liberdade. Estou tentando. Vamos ver como me saio no domingo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

balanço da flip 2009

Apesar da dor nas pernas que o calçamento de pedras causa, apesar da lentidão do atendimento em todos os restaurantes, apesar da superlotação, apesar das pessoas posando de intelectuais, apesar das celebridades televisivas roubando a cena, Paraty tem sempre um charme.
Pensar que mais de 30 mil pessoas rumaram para a cidade e participaram de eventos voltados para a literatura dá certo alento. Ainda assim, nem tudo são flores.
Estive na Flip em 2007 e 2009 e cada vez mais me parece que o evento virou um grande ôba-ôba. As pessoas compram ingressos para todas as mesas sem nem saber se vão poder ir e mesmo sem conhecer os autores (convenhamos, é muito pouco provável que alguém conheça e se interesse pelos participantes de todas as 19 mesas). Mas essa não é nem minha principal crítica.
Há a fetichização da literatura, o desejo de "ver de perto" os escritores na tenda e pelas ruas, mas isso é compreensível. Os leitores se tornam fãs e não há nada demais nisso. O problema é quando os mediadores e os próprios autores se tornam fãs.
Assisti as mesas Deus, um Delírio (com Richard Dawkins), Sequências Brasileiras (a mesa fetiche, com Chico Buarque e Milton Hatoum), Entre Quatro Paredes (com Sophie Calle e Grégoire Bouillier; esta, do lado de fora da tenda do telão) e Fama e Anonimato (com Gay Talese). Entre todos os autores, foram os que eu não conhecia que mais me agradaram.
Dawkins mostrou propriedade ao falar de suas ideias sobre darwinismo e ateísmo e talvez tenha sido tão interessante justamente porque não li nada dele. Hatoum e Chico trocaram elogios e gracejos, mas o amazonense brilhou muito mais e articulou melhor suas ideias sobre literatura e escrita. Calle e Bouillier fizeram de sua DR pública uma ótima discussão sobre a relação entre arte e vida. Ela se revelou interessantíssima - louca, brilhante, como queiram - e ele, coadjuvante, quase a ofuscou (veja alguns trechos abaixo). Acabei comprando livros de ambos. Talese quase decepcionou, mas grande parte da culpa foi de Mário Sérgio Conti, que fez perguntas óbvias e conduziu a conversa por assuntos já explorados de forma excessiva pela imprensa.
De maneira geral, os mediadores foram excessivamente corteses e os autores não estavam muito dispostos a debater ideias, apenas expuseram aquilo que seus leitores assíduos já sabiam de cor. De qualquer maneira, para mim o saldo foi positivo pelo simples fato de conhecer novos autores. Aliás faço uma sugestão: na próxima Flip, assista apenas as palestras de quem você não conhece.





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Vida de Escritor

No primeiro dia de liberdade, aproveito o tempo livre e reinauguro este blog em clima de Flip, com a resenha de um livro de um dos autores que estarão em Paraty.


“Vida de Escritor” é a vida de um escritor norte-americano, sem dúvida. Um homem que já nas primeiras páginas descreve com natural obviedade os lances de uma partida de beisebol e se preocupa em explicar o funcionamento de um jogo de futebol – feminino, no caso.
Tido como a autobiografia de Gay Talese – um dos fundadores do Novo Jornalismo (embora não goste de ser enquadrado no “movimento”), autor de matérias como o mítico perfil “Frank Sinatra Está Resfriado” –, o livro foi publicado nos Estados Unidos em 2006 e chega com atraso ao Brasil, pela Companhia das Letras.
Na verdade, “Vida de Escritor” é menos uma narrativa sobre a vida de Talese que uma reunião de relatos sobre sua relação com a profissão e com os personagens que povoaram seu caminho. São histórias de fracassos, de anos de esforços que resultaram em nada. Histórias de um escritor com elevada autocrítica, um homem com dificuldade em falar sobre si mesmo, que tenta se definir por meio das matérias que escreveu – ou não conseguiu escrever. Como o artigo rejeitado pela revista “The New Yorker” sobre Lorena Bobbitt, mulher que ganhou fama por decepar o pênis do marido.
A escrita clara e elegante está lá, mas o leitor habitual de Talese sentirá falta da narrativa cuidadosamente amarrada. Aqui, o escritor não procura reconstruir sua trajetória de forma coerente, mas a apresenta truncada e fragmentada, tal como a vivenciou. É um percurso um tanto errante: da final da Copa do Mundo de futebol feminino para o modo como o autor trabalha; da infância em Ocean City para um prédio onde nenhum restaurante obteve sucesso; dos anos de faculdade no Alabama para a cobertura da luta pela igualdade de direitos civis no sul racista.
É curioso notar as reservas e melindres que tomam Talese quando o assunto é sua vida íntima – seu casamento e a relação com os sogros, em particular. Esse é o ponto em que “Vida de Escritor” mais se distancia de uma autobiografia. O autor declara não estar em condições de escrever sobre tal aspecto de sua vida porque o conhecimento que tem sobre a mulher e os sogros não é baseado no mesmo tipo de pesquisa que embasa seus livros. Não se assume como escritor de uma biografia – a sua. Por outro lado, não hesita em narrar cenas da infância e da adolescência, passagens que definiram sua personalidade e permaneceram em sua memória.
Um pouco árido para aqueles que não nutrem particular interesse pela controversa atividade jornalística, esse livro menor deve encontrar público fiel entre estudantes de jornalismo e aspirantes a escritores, leitores que certamente se identificarão com as frustrações e inseguranças de Talese. Crises criativas, dificuldades em estabelecer um fio narrativo e extensos trabalhos de pesquisa encalhados são alguns dos tropeços humanos que o escritor enfrenta. São percalços que farão alguns leitores sentirem-se aliviados, por fim, ao saber que uma trajetória de sucesso foi construída em meio a fracassos.

Vida de Escritor

AUTOR Gay Talese
TRADUÇÃO Donaldson M. Garschagen
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 59 (512 págs.)