quinta-feira, 30 de julho de 2009

sobre desejos e pânico

Era feriado, sexta-feira santa, e eu estava de plantão. Meio mau-humorada, cheguei à redação vazia, a não ser pela menina nova, que cobria férias. Liguei meu computador, abri o e-mail do trabalho e procurei por uma mensagem da minha editora. No dia anterior, acontecera um problema com as minhas páginas e eu escrevera a ela, que estava de folga, perguntando como podia resolver. Li a resposta e telefonei ao diagramador para saber quando ele chegaria para fazer as mudanças necessárias.
Só então fui ver os outros e-mails. E estava lá. Em letras maiúsculas, o assunto da mensagem dizia: OFFICIAL ADMISSION TO COMUNDUS PROGRAMME 2009-2010 AND EM SCHOLARSHIP. Vai parecer clichê, mas não posso omitir que senti meus batimentos virem parar na garganta, acelerados. Abri o e-mail. Dear Natalia, as Coordinator of the CoMundus Master Course, I'm glad to communicate you that you have been selected for the year 2009/2010 and you have been awarded the Erasmus Mundus Scholarship to attend the CoMundus Master Course. Li mais uma vez.
- Caralho, caralho! - sem poder evitar, meus gritos ecoaram pela redação vazia, assustando minha colega.
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Três meses antes eu correra para cima e para baixo nas minhas poucas horas de folga, reunindo documentos, para não perder o prazo da inscrição para um mestrado oferecido pela União Europeia. Postei os envelopes no último dia. Coincidentemente, era meu aniversário.
Ao chegar à redação mais tarde do que de costume (sim, eu sou caxias), uma colega comentou, em tom de brincadeira:
- Olha a hora! - e rindo, completou - Nem a Natalia chega cedo mais!
Ensaiei um sorriso que deveria parecer misterioso e respondi:
- Eu estava cuidando do meu futuro.
É claro que, depois dessa frase, ela me obrigou a contar o que eu estivera fazendo.
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Quatro anos antes, um professor da faculdade fora convidado a dar aulas nesse mestrado, em Florença e Londres, e abandonara minha classe no meio do semestre, comprimindo as aulas em apenas dois meses. Em troca, ele falaria à classe sobre o programa quando voltasse. Ele voltou em agosto. No ano seguinte, abandonei as aulas de francês e comecei a estudar italiano.
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Alcançar um objetivo ou algo desejado há muito tempo é uma coisa bem estranha. Principalmente quando é algo que parecia muito distante e que envolve alguns sacrifícios. No início, é até difícil acreditar. Em seguida, já convencido, você dificilmente se dá conta da real dimensão da coisa. Só mais tarde, às vespéras da concretização, a realidade cai sobre a sua cabeça. E ela pesa um pouco, viu?
Como sempre, tento parecer forte e não pensar nas coisas que me oprimem e me pesam no estômago. Rindo nervosa, admito a pessoas com quem nem me importo que sim, estou com medo. Com palavras diferentes, duas migas me disseram para transformar o pânico em sensação de liberdade. Estou tentando. Vamos ver como me saio no domingo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

balanço da flip 2009

Apesar da dor nas pernas que o calçamento de pedras causa, apesar da lentidão do atendimento em todos os restaurantes, apesar da superlotação, apesar das pessoas posando de intelectuais, apesar das celebridades televisivas roubando a cena, Paraty tem sempre um charme.
Pensar que mais de 30 mil pessoas rumaram para a cidade e participaram de eventos voltados para a literatura dá certo alento. Ainda assim, nem tudo são flores.
Estive na Flip em 2007 e 2009 e cada vez mais me parece que o evento virou um grande ôba-ôba. As pessoas compram ingressos para todas as mesas sem nem saber se vão poder ir e mesmo sem conhecer os autores (convenhamos, é muito pouco provável que alguém conheça e se interesse pelos participantes de todas as 19 mesas). Mas essa não é nem minha principal crítica.
Há a fetichização da literatura, o desejo de "ver de perto" os escritores na tenda e pelas ruas, mas isso é compreensível. Os leitores se tornam fãs e não há nada demais nisso. O problema é quando os mediadores e os próprios autores se tornam fãs.
Assisti as mesas Deus, um Delírio (com Richard Dawkins), Sequências Brasileiras (a mesa fetiche, com Chico Buarque e Milton Hatoum), Entre Quatro Paredes (com Sophie Calle e Grégoire Bouillier; esta, do lado de fora da tenda do telão) e Fama e Anonimato (com Gay Talese). Entre todos os autores, foram os que eu não conhecia que mais me agradaram.
Dawkins mostrou propriedade ao falar de suas ideias sobre darwinismo e ateísmo e talvez tenha sido tão interessante justamente porque não li nada dele. Hatoum e Chico trocaram elogios e gracejos, mas o amazonense brilhou muito mais e articulou melhor suas ideias sobre literatura e escrita. Calle e Bouillier fizeram de sua DR pública uma ótima discussão sobre a relação entre arte e vida. Ela se revelou interessantíssima - louca, brilhante, como queiram - e ele, coadjuvante, quase a ofuscou (veja alguns trechos abaixo). Acabei comprando livros de ambos. Talese quase decepcionou, mas grande parte da culpa foi de Mário Sérgio Conti, que fez perguntas óbvias e conduziu a conversa por assuntos já explorados de forma excessiva pela imprensa.
De maneira geral, os mediadores foram excessivamente corteses e os autores não estavam muito dispostos a debater ideias, apenas expuseram aquilo que seus leitores assíduos já sabiam de cor. De qualquer maneira, para mim o saldo foi positivo pelo simples fato de conhecer novos autores. Aliás faço uma sugestão: na próxima Flip, assista apenas as palestras de quem você não conhece.





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Vida de Escritor

No primeiro dia de liberdade, aproveito o tempo livre e reinauguro este blog em clima de Flip, com a resenha de um livro de um dos autores que estarão em Paraty.


“Vida de Escritor” é a vida de um escritor norte-americano, sem dúvida. Um homem que já nas primeiras páginas descreve com natural obviedade os lances de uma partida de beisebol e se preocupa em explicar o funcionamento de um jogo de futebol – feminino, no caso.
Tido como a autobiografia de Gay Talese – um dos fundadores do Novo Jornalismo (embora não goste de ser enquadrado no “movimento”), autor de matérias como o mítico perfil “Frank Sinatra Está Resfriado” –, o livro foi publicado nos Estados Unidos em 2006 e chega com atraso ao Brasil, pela Companhia das Letras.
Na verdade, “Vida de Escritor” é menos uma narrativa sobre a vida de Talese que uma reunião de relatos sobre sua relação com a profissão e com os personagens que povoaram seu caminho. São histórias de fracassos, de anos de esforços que resultaram em nada. Histórias de um escritor com elevada autocrítica, um homem com dificuldade em falar sobre si mesmo, que tenta se definir por meio das matérias que escreveu – ou não conseguiu escrever. Como o artigo rejeitado pela revista “The New Yorker” sobre Lorena Bobbitt, mulher que ganhou fama por decepar o pênis do marido.
A escrita clara e elegante está lá, mas o leitor habitual de Talese sentirá falta da narrativa cuidadosamente amarrada. Aqui, o escritor não procura reconstruir sua trajetória de forma coerente, mas a apresenta truncada e fragmentada, tal como a vivenciou. É um percurso um tanto errante: da final da Copa do Mundo de futebol feminino para o modo como o autor trabalha; da infância em Ocean City para um prédio onde nenhum restaurante obteve sucesso; dos anos de faculdade no Alabama para a cobertura da luta pela igualdade de direitos civis no sul racista.
É curioso notar as reservas e melindres que tomam Talese quando o assunto é sua vida íntima – seu casamento e a relação com os sogros, em particular. Esse é o ponto em que “Vida de Escritor” mais se distancia de uma autobiografia. O autor declara não estar em condições de escrever sobre tal aspecto de sua vida porque o conhecimento que tem sobre a mulher e os sogros não é baseado no mesmo tipo de pesquisa que embasa seus livros. Não se assume como escritor de uma biografia – a sua. Por outro lado, não hesita em narrar cenas da infância e da adolescência, passagens que definiram sua personalidade e permaneceram em sua memória.
Um pouco árido para aqueles que não nutrem particular interesse pela controversa atividade jornalística, esse livro menor deve encontrar público fiel entre estudantes de jornalismo e aspirantes a escritores, leitores que certamente se identificarão com as frustrações e inseguranças de Talese. Crises criativas, dificuldades em estabelecer um fio narrativo e extensos trabalhos de pesquisa encalhados são alguns dos tropeços humanos que o escritor enfrenta. São percalços que farão alguns leitores sentirem-se aliviados, por fim, ao saber que uma trajetória de sucesso foi construída em meio a fracassos.

Vida de Escritor

AUTOR Gay Talese
TRADUÇÃO Donaldson M. Garschagen
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 59 (512 págs.)