quinta-feira, 20 de agosto de 2009

o azul do fim do dia

Eu adoro aquela hora do dia em que ainda não está totalmente escuro, mas também não está claro mais. O céu se colore de um azul inimitável e todas as coisas ganham um brilho diferente.
Hoje, vi o céu ganhar essa cor através das pequenas janelas no alto da nave da catedral de Roskilde, enquanto o espaço era tomado pelas notas que fluíam de um esplêndido órgão do século 19, como se toda uma orquestra houvesse se instalado ali.
Enquanto o organista soava Bach e Haydn, o céu passava do azul insípido diurno para esse azul paradoxal, intenso e suave. Caminhar sozinha pelas ruas iluminadas, sob essa cúpula luminosa, foi o toque final.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sobre a insignificância

Em meio a estudantes de todas as nacionalidades, ser o único representante do Brasil significa ser chamado a dar alguns esclarecimentos. Surpreendentemente, eles nada têm a ver com samba ou futebol, mas o primeiro é bastante banal: não, nós não falamos espanhol. Na verdade, o que chamou minha atenção foi o que veio em seguida: nossa moeda é forte? Quanto vale em relação ao euro e ao dólar? Bem, parece que, em comparação a muitos outros países (Rússia, Ucrânia e Israel, por exemplo), nossa moeda é bem forte. Sei que seria incompleto dizer só isso e esquecer que pagamos impostos absurdos e que a renda de grande parte da população não alcança os cem dólares.
E como o Brasil está se saindo diante da crise econômica? O que devo responder? Que, entre mortos e feridos, salvaram-se todos (ou quase)? Que os mais afetados foram as classes mais pobres e as exageradamente ricas? Que a economia já começa a se recuperar? É óbvio que falta aí um dado essencial: nossa taxa de crescimento já era ridícula antes da crise e o tombo não poderia ser tão grande.
Mas o verdadeiramente curioso nesses questionamentos não é o interesse na economia brasileira. É outra coisa. Por mais que se alardeio no Brasil nossa crescente importância na geopolítica mundial, nossa posição de potência regional e emergente, por mais que Obama diga a Lula que ele “é o cara”, o resto do mundo está cagando para nós. Ignoram nosso papel na geopolítica, não sabem que Lula se considera um grande líder mundial e nem fazem idéia de quem ele seja, desconhecem que estamos entre as dez maiores economias do mundo e que São Paulo é uma megalópole com quase 20 milhões de habitantes na área metropolitana (a maior cidade das Américas e maior do que qualquer capital européia).
No “velho mundo”, continuamos insignificantes.

sábado, 15 de agosto de 2009

algumas considerações sobre a Dinamarca (ou: dos problemas de viver no país perfeito)

Este é definitivamente um país onde tudo funciona. De forma irritantemente eficiente. Tive uma prova disso na semana passada. Chego à Rundetårn, torre de onde é possível ver boa parte de Copenhague. Segue o diálogo com o funcionário da bilheteria.
– Hi – digo, estendendo 25 coroas.
– Hi – ele pega as moedas – Where are you from?
– Brazil – respondo, achando que ele está só sendo simpático. Ele procura um folheto.
– It can be in English – digo, tentando poupar-lhe trabalho em vão.
– We have it in Portuguese – responde ele, me entregando o papel.
Ou os portugueses e brasileiros são uma parcela significativa dos turistas – o que não parece ser o caso, já que não se escuta muito a língua pelas ruas – ou a eficiência dinamarquesa simplesmente passou dos limites.
Sim. Aqui, tudo funciona. A burocracia inexiste, é fácil tirar documentos, a saúde é pública para todos, inclusive estrangeiros, e os melhores museus são gratuitos. Os carros param quando alguém pisa na faixa; ninguém atravessa se o sinal estiver fechado (mesmo que a rua esteja deserta); há ciclovias por todos os lados, uma de cada lado da rua, cada uma em um sentido; os ciclistas fazem sinal antes das conversões e as bicicletas ficam estacionadas sem necessidade de cadeados. Os trens são muitos, em todas as direções, e absolutamente pontuais.
O transporte público é um capítulo à parte e faria corar Marta Suplicy com a grande piada que é o nosso bilhete único comparado ao sistema dinamarquês. Tudo funciona com base em zonas e o preço da passagem varia de acordo com elas. Para viajar entre duas zonas, são 21 coroas; entre três, 31,50, e assim por diante. Na Grande Copenhague, são 95 zonas, embora eu só tenha conseguido identificar oito (a oitava é onde fica a cidade onde moro, Roskilde – ou rroskill, como me corrigiu o fiscal do trem após várias tentativas de explicar para onde eu ia). A mesma passagem vale para os trens (urbanos e regionais), ônibus, metrô e até para os barquinhos que cruzam o canal do porto e é possível escolher entre bilhetes que valem de uma hora a 30 dias. É como se, com a mesma passagem, pudéssemos viajar em uma área que inclui a Grande São Paulo, Santos e até Jundiaí. E tudo é limpo e eficiente, nunca lotado. Bom, pelo menos os trens, que são o meio que tenho utilizado, já que não consigo nem pronunciar o nome dos lugares para pedir informações sobre os itinerários dos ônibus.
É, a língua é realmente um problema. É muito frustrante olhar as placas nas ruas, as embalagens nos supermercados, as manchetes dos jornais e tudo o mais e não conseguir identificar sequer uma palavra. E, se ler é impraticável, compreender é impossível. As pessoas podem estar falando dinamarquês, norueguês, sueco ou alemão. Tanto faz, não consigo fazer nenhuma distinção. Tudo bem, todos falam inglês e são muito, muito solícitos, mas, mais uma vez, como podem ajudar quando você não consegue nem pronunciar os nomes das ruas, cidades, lugares, lojas?
As lojas, aliás, são outro capítulo da irritante eficiência. Pois, se ela funciona em benefício dos turistas e usuários de transporte público, também funciona para a “classe trabalhadora”, que é brindada como uma jornada de trabalho bastante reduzida. Isso significa que tudo fecha muito cedo. Do comércio de rua – mesmo o turístico – às farmácias, tudo fecha entre 17h e 18h. Os shoppings, lojas de departamento e uns poucos supermercados têm o horário estendido até – pasmem – às 20h. Durante a semana, porque tudo fecha mais cedo no sábado. E nem tente encontrar algo aberto no domingo. Isso é especialmente irritante quando a luz do dia sempre passa das 21h. Mas tudo bem, a Dinamarca é um país onde tudo funciona.