quarta-feira, 1 de julho de 2009

Vida de Escritor

No primeiro dia de liberdade, aproveito o tempo livre e reinauguro este blog em clima de Flip, com a resenha de um livro de um dos autores que estarão em Paraty.


“Vida de Escritor” é a vida de um escritor norte-americano, sem dúvida. Um homem que já nas primeiras páginas descreve com natural obviedade os lances de uma partida de beisebol e se preocupa em explicar o funcionamento de um jogo de futebol – feminino, no caso.
Tido como a autobiografia de Gay Talese – um dos fundadores do Novo Jornalismo (embora não goste de ser enquadrado no “movimento”), autor de matérias como o mítico perfil “Frank Sinatra Está Resfriado” –, o livro foi publicado nos Estados Unidos em 2006 e chega com atraso ao Brasil, pela Companhia das Letras.
Na verdade, “Vida de Escritor” é menos uma narrativa sobre a vida de Talese que uma reunião de relatos sobre sua relação com a profissão e com os personagens que povoaram seu caminho. São histórias de fracassos, de anos de esforços que resultaram em nada. Histórias de um escritor com elevada autocrítica, um homem com dificuldade em falar sobre si mesmo, que tenta se definir por meio das matérias que escreveu – ou não conseguiu escrever. Como o artigo rejeitado pela revista “The New Yorker” sobre Lorena Bobbitt, mulher que ganhou fama por decepar o pênis do marido.
A escrita clara e elegante está lá, mas o leitor habitual de Talese sentirá falta da narrativa cuidadosamente amarrada. Aqui, o escritor não procura reconstruir sua trajetória de forma coerente, mas a apresenta truncada e fragmentada, tal como a vivenciou. É um percurso um tanto errante: da final da Copa do Mundo de futebol feminino para o modo como o autor trabalha; da infância em Ocean City para um prédio onde nenhum restaurante obteve sucesso; dos anos de faculdade no Alabama para a cobertura da luta pela igualdade de direitos civis no sul racista.
É curioso notar as reservas e melindres que tomam Talese quando o assunto é sua vida íntima – seu casamento e a relação com os sogros, em particular. Esse é o ponto em que “Vida de Escritor” mais se distancia de uma autobiografia. O autor declara não estar em condições de escrever sobre tal aspecto de sua vida porque o conhecimento que tem sobre a mulher e os sogros não é baseado no mesmo tipo de pesquisa que embasa seus livros. Não se assume como escritor de uma biografia – a sua. Por outro lado, não hesita em narrar cenas da infância e da adolescência, passagens que definiram sua personalidade e permaneceram em sua memória.
Um pouco árido para aqueles que não nutrem particular interesse pela controversa atividade jornalística, esse livro menor deve encontrar público fiel entre estudantes de jornalismo e aspirantes a escritores, leitores que certamente se identificarão com as frustrações e inseguranças de Talese. Crises criativas, dificuldades em estabelecer um fio narrativo e extensos trabalhos de pesquisa encalhados são alguns dos tropeços humanos que o escritor enfrenta. São percalços que farão alguns leitores sentirem-se aliviados, por fim, ao saber que uma trajetória de sucesso foi construída em meio a fracassos.

Vida de Escritor

AUTOR Gay Talese
TRADUÇÃO Donaldson M. Garschagen
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 59 (512 págs.)

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